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Branco, amarelo, verde: o que a cor do corrimento pode indicar?

Senta aí que agora eu vou jogar a real: a cor do corrimento vaginal, sozinha, não fecha diagnóstico.

E, na prática, isso costuma frustrar bastante.
Porque a gente foi ensinada a pensar assim: corrimento branco é candidíase, corrimento amarelo é vaginose, corrimento verde é IST e cheiro ruim significa “bactéria forte”.

Só que… não é assim que a vagina funciona.

A cor do corrimento vaginal ajuda muito pouco

A grande verdade é essa:
a cor e o aspecto do corrimento vaginal, isoladamente, ajudam muito pouco a definir o diagnóstico.

Um corrimento verde claro não é mais grave do que um verde escuro.
Da mesma forma, um corrimento branco sem cheiro pode, sim, ser doença.

Além disso, um corrimento que “parece normal” pode esconder candidíase ativa, vaginose bacteriana ou um desequilíbrio da microbiota vaginal.

Ou seja, aparência bonita não garante saúde vaginal.

“Mas então pra que olhar a cor do corrimento?”

Boa pergunta.

Em termos práticos, a cor e o aspecto do corrimento vaginal ajudam a levantar hipóteses, mas não a fechar diagnóstico.

Por exemplo: um corrimento esverdeado ou amarelado dificilmente é fisiológico.
Já um corrimento transparente e sem cheiro costuma ser normal.

Só que isso não é uma regra absoluta.

Porque também existe vaginose sem cheiro, candidíase sem grumo e até corrimento vaginal que parece totalmente normal, mas que no microscópio está completamente alterado.

Entendeu o problema agora?

O erro clássico: diagnosticar corrimento vaginal pelo olho nu

Na prática clínica, quando o profissional tenta dar diagnóstico só olhando o corrimento vaginal, ele erra feio. Estudos mostram que isso leva a erro em até 70% dos casos.

E dentro desses erros entram dois cenários igualmente ruins:

  • pacientes que precisavam ser tratadas e não foram,
  • e pacientes que foram tratadas e não deveriam.

É aqui que mora um estrago silencioso.

O grande problema de tratar corrimento vaginal errado

Quando você trata um corrimento vaginal que não era aquilo que você achava que era, você faz duas coisas ruins ao mesmo tempo.

Primeiro, você não resolve o problema real.
Segundo, você destrói a microbiota vaginal.

Isso acontece porque a maioria dos tratamentos mata os lactobacilos. E os lactobacilos são as bactérias boas que protegem a vagina. São eles que mantêm o pH ácido, que impedem bactérias ruins e fungos de dominarem e que protegem contra corrimento vaginal de repetição.

Spoiler: quem protege sua vagina é o lactobacilo

Não é laser vaginal, não é a dieta sem glúten, não é a dieta sem lactose e não será cortando o açúcar da vida. Quem protege a sua vagina é o lactobacilo.

Em outras palavras: se sua vagina está povoada por lactobacilos felizes e dominantes, você pode sair da consulta e comer um belo pudim de leite condensado em paz. Com moderação, mas em paz.

“Então cada cor do corrimento vaginal não significa nada?”

Significa alguma coisa. Só não significa que apenas a cor é suficiente para chegar a um diagnóstico.

Eu poderia vir aqui e te dizer que corrimento verde sem cheiro é candidíase, que corrimento tipo leite talhado é vaginose citolítica, que corrimento amarelo é clamídia ou que vaginose sempre tem cheiro de peixe. Mas isso não é verdade à luz da melhor evidência científica que existe hoje.

Essas associações simplistas são exatamente o que gera erro diagnóstico, tratamento errado, destruição da microbiota e corrimento vaginal de repetição.

A única forma confiável de diagnosticar corrimento vaginal

Hoje a ciência é muito clara sobre isso: só a microscopia consegue diferenciar corretamente os tipos de corrimento vaginal.

Apenas o exame no olhômetro não possibilita diagnóstico. O cheiro ou a cor, isoladamente, também não. Apenas a microscopia é capaz de possibilitar o diagnóstico de um corrimento. 

E a boa notícia é que esse exame é feito no próprio consultório, dá pra fazer no mesmo dia, não dói e não precisa mandar nada para laboratório. 

Na prática, a gente pega uma amostra do corrimento vaginal com um cotonete e avalia ali, na hora.

No microscópio dá pra ver se a cândida está ativa ou só colonizando, se existe vaginose bacteriana, se há inflamação e como está a microbiota.

Resumo honesto

A cor do corrimento vaginal não fecha diagnóstico. A aparência engana e tratar pelo olho nu erra em até 70% dos casos. Tratar errado destrói lactobacilos. E os lactobacilos são os verdadeiros heróis dessa história.

E, principalmente: corrimento vaginal se diagnostica olhando no microscópio.

Se o seu corrimento vaginal não melhora

Se você já tratou candidíase várias vezes, já tomou antibiótico, já trocou pomada e o corrimento vaginal sempre volta, provavelmente o problema não é a cor. É o diagnóstico.

Na Casa Irene, a gente não trata no escuro. A gente não trata por palpite. A gente trata depois de ver no microscópio o que está causando os sintomas.

Se você quiser entender que tipo de corrimento vaginal você realmente tem, por que isso sempre volta e como sair desse ciclo, então agende uma consulta no SOS Corrimento.

Fonte: Farr et al, 2021, Nsenga & Bongomin, 2022

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